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Oh hipócrita leitor!
Salve-se da gélida mesmice com o ardor do
Inferno de Bolso
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Márcio Almeida
Desde que surgiu, na década de 80, com tendência concreta, ao esgar e à crítica mordaz da pós-modernidade e de seu próprio “ofício mais vão”, na Alfenas provincial com ares de Paulicéia, Eloésio Paulo dos Reis foi identificado por uma “imensa minoria” por ser um novíssimo cão danado da poesia brasileira.
Um bardo pitbull a morder e a assoprar o poeticamente correto, a contrapor-se ao igrejismo (religioso e literário), aos ismos de plantão, ao delírio da academídia implantando de assalto um questionável multiculturalismo, às linguagens requentadas advindas das vanguardas históricas rumo ao vazio pós-sartriano à procura de um chão epistêmico e hermenêutico onde (re) pousar a erupção extenuante de teorias ávidas por substituir a autoria pelo xérox holmes da investigação crítica.
Hello, ésio! – saudaram poucos e lúcidos cricríticos que fizeram vênias e coralidade àquele que já checou bombando a Rede Globo, que “se não mata, engorda.”
Um longo sumiço consumiu o poeta em dissertação de mestrado e tese de doutorado na Unicamp, de que resultou a publicação de “Teatro às escuras” (1997), uma introdução ao romance de Uilcon Pereira. O revival teórico levaria Eloésio a conviver medularmente com o paideuma que hoje emerge das leituras que faz no recém-lançado Inferno de bolso, um precioso incômodo às besteirice e àquela cricrítica que se engendra com a vigília de Compagnon.
A “construção de ruínas” derruídas por W. Benjamin, a dialógica entre sentido e non sense, a lógica e a incerteza, a viagem de um Sísifo condutor de inútil bola de cristal pela montanha mágica da cultura, o orgasmo fugaz por uma Aufklaerung popular, o “canibalismo brasílico”, os corredores de aporia da metalinguagem, a babelização e o esquizo, a resistência poética et alli.
Agora, o poeta atiça mais lenha na fogueira das vãs idades do homo ciberneticus-informaticus com ironias dramáticas, elipses desconcertantes, desconstruções infernais alusivas à classe média, de que o poema “Vertigem do Zeitgeist” é exemplar), à religião, com profusa crítica por todo o livro, ao consumismo, aos cânones, à própria poesia.
Com recursos de estilos de época diversos, como o arcaísmo, ao anti-estilo do concretismo; com a metafísica escatológica à danação da fero-cidade e sua violência inerente; com o feeling de um lirismo imagético sem frescura ou piedade, com evocações degenerativas do surrealismo e doideiras dadas, Inferno de bolso leva o leitor a perquirir se de fato Eloésio é, hoje, como o próprio se assume, um “romântico purgado de toda pieguice.”
O livro, composto por 90 poemas, se expõe inóspito e eivado de um fértil estranhamento – como o velame deli versi strani do “Inferno” de Dante, de que se vale para epigrafar o opúsculo. Ali estão “o nervo da vida exposto” (100), um ferino e erudito “distribuidor de carapuças” (94) a promover a “solidariedade dos danados” (91) com “a bravata do vulcão” (49), certo apenas de que “de boa intenção o inferno está repleto” (35).
Eloésio é um poeta que se deixa dizer porque tem o que dizer agora com dicção própria à “sosiedade (sic) dos poetas mórbidos” (91); diz, então, aos contemporâneos: “a poesia é um anjo ateu que me soslaia” (65), e ela, como a “vagina dentada” da cantada literária, “tem grandes e pequenos lábios” e “aceita ser penetrada” (55).
O poeta está consciente de que “o poema naufraga em retórica e bolhas de sabão” e, ao forjar nomes “na fábrica abstrata dos substantivos” o poema se reduz a mitologia em cujo meio “se equilibra” (e nem Deus ou diabo sabe ainda como!) a poesia (54).
Inferno de bolso promove uma poesia contra os “gagos confeitos do óbvio” (26) sem “pôr mais do mesmo” (22) no calderõn de la barca furada do “teatro de sombras” do grupelho poético que é “dramaturgo, ator e espectador – que aplaude a si mesmo à beça” (18). O livro se inscreve, hostil e desafiador, na produção rara que “rejeita qualquer delicadeza”, que “prefere o grito alucinado à tentação do suspiro” (14).
Quixotismo de sacristia
O poeta tem um foco na dessacralização da utopia religiosa, reconhecendo possuir um “quixotismo de sacristia” (11). Nessa atualidade em que a mídia já não vela a prática quase rotineira da pedofilia e homossexualismo do clero, quando mesmo os preceitos do Vaticano são postos em questionamento até por necessidade de haver uma assepsia doutrinária – Eloésio desmantela de se a atávica influência da religiosidade mineira. E em sua “metafísica da natureza morta” começa por reconhecer: “profetas – que ainda alucinam anjos com trombetas – não sabem de nada” (10).
Ácido, as vezes cheio de um humor oswáldico-drummondiano, de ironia implacável, o poeta lê a fé como um “mal secreto” que baudelaireanamente exige força e coragem para “urrar por dentro a chaga sem remédio” (20).
A crítica à religião/religiosidade provinciana-self-service tem seu ápice no poema “Deus é zero”, no qual afirma ter o Pai Eterno despencado do céu “para refugiar-se atrás da pantalha (...) pensando em pirocas de rapazolas – sensíveis à espórtula polpuda” (28). Não menos mordida afiada, sob o menu barroco de um Gregório de Matos Guerra, é “Dialética da defenestração” no qual o monge “mandou ladrilhar – com tachinhas perfurantes – a rua dos carmelitas descalços – que usam boca de sino” (30).
Ateísta e recalcitrante, o poeta declara: “o Senhor é meu pastor – mas não me pastará” (40). E em “Champanha antidrogas”: “não fumo NEM JESUS” (42). A ironia antiparoquial eloesiana se estende no livro como a compor um “bíblico dialeto” (47) a detonar, a razão do cinismo, a fé, o igrejismo lítero-filosófico, a exemplo do poema “Religião literária”: “o poeta sânscrito – meditava com o poeta mântrico – o meio de bater a carteira – do poeta tântrico. – enquanto isso o poeta tântrico – tirava satori do pinto” (72).
Essa crítica à utopia do homo religious de Rudolf Otto. Arraigada na cultura da mineiridade depreende-se do que Fábio Lucas, na “orelha”, assinalou como sendo “um progressivo desgarramento das noções adquiridas na formação interiorana, um jeito iconoclasta de destruir deuses interiorizados pela educação.”
Legado dos poetas-críticos
A ironia, a ludicidade do jeu des mots, as freqüentes paródias, as citações emblemáticas, mormente quando excertos de obras originais, o escorreito dialogismo backthiniano, a inventiva em um humor estratégico, o reflexo do aprendizado acadêmico que se torna work in progress, a intenção constitutiva de uma “poética do grotesco” e de uma “metafísica nebulosa” – refletem em Eloésio Paulo dos Reis o modus operandi da vertente mais criativa da produção brasileira: a do poeta-crítico.
Essa espécie de produtor poético, pontua Júlio Pinto, “tem grande pertinência na descrição da experiência contemporânea, que parece catalisar as forças apocalípticas do mundo cognitivo em um vórtice de simulacros sem qualquer sentido a não ser nos fazer crer”1.
A pós-modernidade pressupõe, entr seus eixos referenciais, o “discurso desconstrutor, descentralizador do fazer artístico e que, principalmente, adota uma face iconoclasta, irônica e inovadora como forma de realização de seu exprimir poético”, assinala Wagner Moreira2.
Poeta-crítico, Eloésio insere-se como uma voz “que vem do exercício da abstração, da percepção e das afecções, das intensidades de todas as paixões”, pois a poesia “manifesta-se enquanto discurso da desordem”3. O poeta-crítico perfaz uma viagem dos sentidos, amealhando as influências, revitalizando o estranhamento e o conhecimento implícito na poesia.
Ao reassumir o interesse pelas formas fixas, a exemplo do soneto (“Insonieto duish semióinsh”, 33 – “Sosiedade dos poetas mórbidos”, 91 – “Soneto monossílabo”, 97), da quadrinha de cordel (“Sereníssima república da trova”, 87), do verso livre, Eloésio também integra-se ao corpus dos autores de uma poesia-reflexiva, objeto de si mesma.
Sem caracterizar um movimento convencional, de voz coralizada em tom uníssimo, fato é que os poetas-críticos têm em comum a função do exercício docente, sendo a maioria professores universitários mestres e/ou doutores. Essa especificidade faz deles poetas com amplo domínio teórico-espistêmico, em melhores condições de comprovar que o lugar da poesia na contemporaneidade “é lugar de atrito e de troca de linguagem, lugar de conflito e negociação entre falas diaspóricas”4.
Inferno de bolso exemplifica com competência essa vertente em busca de ressignificação na produção de sentido. Tal como redescobrir, como faz o poeta, “a possibilidade do jardim na própria flor” (80).
Notas
- Pinto, Júlio. Dezfaces: Belo Horizonte, dez. 2006, p.18.
- Moreira, Wagner. Belo Horizonte: Ato – revista de literatura, número 2, dez. 2005, p. 1.
- Campos, Ângela Vieira. Belo Horizonte: Dezfaces, abr. 2007, número 7, p. 24.
- Holanda, Heloísa Buarque de. Apud Ítalo Moriconi, Belo Horizonte: Suplemento Literário do Minas Gerais, número 50, ago. 1999, p. 32-35.
Márcio Almeida é mestre em Literatura, professor universitário, jornalista, poeta e crítico, autor de 39 publicações.
Serviço
Inferno de bolso – Sic Edições – Rua José Dias Barroso, 149 – 37.130-000 – Alfenas, MG – (35) 9902-0053 – alimariameister@gmail.com
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